Maria Tereza GodoyMaria Tereza Búrigo Marcondes Godoy é catarinense, descendente de italianos, portugueses e índios. Formou-se em Letras pela URGS. É também tradutora e intérprete, formada pela Associação Alumni de São Paulo. Possui o Certificate of Proficiency in English, da Universidade de Cambridge, Inglaterra, e o da Universidade de Michigan, Estados Unidos. É também Facilitadora Didata de Biodanza, formada pela Escola Paulista de Biodanza e filiada à International Biodentric Foundation. É apaixonada por arte. Adora viajar, ler e ouvir música. Casada há 54 anos, tem 3 filhos e 5 netos. Sua família constitui sua maior riqueza.
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Crianças e suas tiradas
Embora o material contido neste livro seja todo recolhido a partir de palavras, frases, diálogos e situações que envolvem crianças, não é um livro para crianças. É para nós, adultos, que, já distantes desta maravilhosa época de nossas vidas, podemos saborear com alegria e entusiasmo as sacadas destas pequenas criaturas. O que não impede que, vez por outra, os adultos leiam para elas alguma tirada que possivelmente as divertirá.
COMENTÁRIOS AO LIVRO DE MARIA TEREZA GODOY
“CRIANÇAS E SUAS TIRADAS”
Roselis Batistar
Havendo deixado a Psicolinguística há uns dez anos, considerava que, como etnolinguista, eu já havia lido o bastante sobre a teoria. Havia também seguido vários cursos de Linguística Aplicada no México e na França, o suficiente para continuar dando aulas de línguas estrangeiras (em particular, português, francês e russo), já que o português é uma língua estrangeira para os hispanófonos. Mas o trabalho com línguas indígenas e minha vontade de entendê-las levaram-me de volta à Psicolinguística. Orientei teses na área, voltei a ler Slama-Cazacu, as lições de Y. V. Vannikov, a história do cachorro de Pavlov, os manuais de Psicologia, o que M. Breen havia dito no seu Curso de Formação de Professores de Línguas, e um autor cujo nome não recordo, mas que me jogou um balde de água fria. Explico-me: eu já tinha como premissa de pesquisa que a lógica linguística das crianças tinha muito a ver com meu "aprendizado" de línguas indígenas, que na realidade eu não tinha que "falar", mas só descrever e analisar suas estruturas. Perguntava-me se isso era possível e, como uma criança, tentei me socializar.
A reflexão que me assaltou, depois de voltar da aldeia, era ligada ao pensamento. A leitura daquele artigo sobre lógica e pensamento remetia-me a Chomsky, que eu lia muito naquela época. Agarrava-me a seu aparente otimismo, que defendia a ideia de que qualquer criança podia adquirir qualquer língua, e comecei a tentar “pensar sem pensamento”, ou melhor, sem língua, - sem aquela língua, kraho, por exemplo - mas com lógica. Para isso, eu cria, precisava voltar a ser criança. Apesar de minhas práticas no terreno, ainda estava tudo muito cru em minha cabeça, mas depois de um mês, eu escutava os índios homens falando, e já sabia qual era o assunto de que falavam. Naquele momento, não dera muita atenção a meus progressos “infantis”, digamos assim, pois a descrição fonética da língua e sua estrutura semi-ergativa, por exemplo, eram mais relevantes para a etnolinguista que eu era.
Isto havia ocorrido há pelo menos 20 anos. Mas a história não acabara. Chegou o livro de M. T. Godoy que, indiretamente, remeteu-me ao passado, às minhas hipóteses que não aceitaram o balde de água fria. Alguma razão eu tinha e tenho.
Estamos, em princípio, diante de um livro-passatempo. É o que pensamos, à primeira vista, ao ler o título “Crianças e suas tiradas”. Aliás, acredito que a maioria dos leitores considera esta compilação um motivo de divertimento.
É evidente que a autora não pensou em fazer um tratado linguístico, nem social e nem psicológico de sua compilação que, a julgar pela densidade de exemplos, levou anos. Mas a seleção dá margem à questão cultural, que evidentemente ela sabia que sairia da boca das crianças. Também há exemplos de História, Lógica, Matemática, Filosofia etc.
Do ponto de vista da comunicação, o tema da aprendizagem de línguas ocupa um lugar relevante. É a aquisição de um instrumento de contato com seus semelhantes, o que é fundamental para as crianças novas. Não me arrisco a dizer que tal tema não tenha passado pela cabeça dessa ex-professora de língua estrangeira. E, consta-me, ela o foi durante anos.
O tema da linguagem e do pensamento também voltou à minha mente. A famosa questão do que surgiu primeiro martelava meu cérebro com aquela perguntinha de leigos, muito repetida: o que surgiu primeiro, o ovo ou a galinha? Pensando bem, a aquisição da língua materna ajuda a elucidar o problema que é, em geral, olvidado pelos vários métodos de aprendizagem de uma língua outra que não a materna. Notem, falei aprendizagem, não aquisição. Será que uma inversão é possível? Mas vamos ficar com o que é certo: o livro disserta indiretamente sobre a imperiosa necessidade de afeto que passa, evidentemente, pela comunicação. E mesmo que esta possa se dar de várias formas, a criança vai concluir que se comunica melhor falando.
A esta altura, o que o livro sui generis de M. T. Godoy tem a ver com isso? Respondo: TUDO. Através das 'tiradas' de crianças, a maioria com menos de 5 anos - mesmo que as mais 'velhas' até 12 anos tenham sua importância - , ela presenteia o público leitor com nossos primeiros passos linguísticos, psicológicos, comunicativos, afetivos, sociológicos, filosóficos etc. e, claro, humorísticos.
Literariamente, o livro não se enquadra nem no gênero conto nem crônica, e menos ainda no romance. Nós somos as personagens ‘ocultas' - no sentido de não reveladas como tais - simbolizadas pela narradora onisciente, que explica cada contexto particular onde ocorreu o fato, nem sempre humorístico. A narradora se preocupou em especificar o nome e a idade da criança e, em certas ocasiões, o lugar da enunciação. Assim, mais próximo a um banco de dados, ou a fragmentos de cartas que reproduzem diálogos, ou ainda a um teatro de 'boulevard'* - que poderia transformar-se depois num Pixerécourt** do século XX, fazendo parte de uma programação televisiva, o volume contém mais de 120 tiradas, distribuídas em 157 páginas. A maioria das tiradas são de crianças entre 2 e 5 anos, justamente naquela faixa etária que Piaget tanto prezava. Minhas leituras passadas se iluminaram na memória. Jakobson também surgiu nas lembranças e eu resolvi procurar na memória aquelas leituras.
A FALTA E O ERRO
Na aquisição da língua materna - assim denominada porque, em geral, é a mãe a que está mais tempo em contato com a criança - as tergiversações que porventura a mãe use (com vocabulário que ela inventa, com a “fabricação” de diminutivos, que ela utiliza abundantemente, mesmo forçando a tonalidade de sua voz para mais aguda) não prejudicarão em nada a aquisição da língua materna, cujo arcabouço de base será sempre o mesmo. Desde o princípio, a criança percebe os artifícios linguísticos de sua mãe, avó, babá ou alguma pessoa querida e carinhosa. A estrutura do português, no caso, continuará sendo SVO (sujeito, verbo, objeto), com chiados e palavras inventadas, ou não.
Nesse processo de aquisição, o mais comum e repetitivo será usado pela criança, que não erra, quando diz 'eu podo', em lugar de 'eu posso'. Ela escutou 'eu como', ‘eu corro' etc. e internalizou a regularidade da língua. Somos nós, adultos, que em geral cometemos erros que também seriam faltas, se um professor de inglês, por exemplo, entendesse que o aluno assimilou a regra da regularidade dos verbos no passado, como, por exemplo, o ‘ed’. Por isso, às vezes o aluno dirá he drinked ao invés de he drank, que é irregular. Isso já é um avanço. E na criança não é diferente. Todas elas passam por essa fase e a 'corrigem' logo.
O livro em questão está repleto de exemplos do que acabamos de afirmar, ou seja, que a criança, em seu afã de ser aceita e querida pelas pessoas com quem convive e que conhece, vai internalizar, em primeiro lugar, a estrutura da língua, e é sobre ela que os outros elementos semânticos vão aparecendo. Por isso é que os exemplos morfológicos e lexicográficos são mais encontrados que qualquer desvio na sintaxe. O que, aliás, mesmo estando na terceira leitura, não encontrei, como já previra. Vejamos alguns exemplos:
À página 46, temos um problema morfológico de gênero pela terminação o para masculino e a para feminino. Aí entra a semântica da definição de sexo, algo difícil, em princípio, para a criança entender. Assim, o substantivo 'macho’ pode comportar uma terminação em a, se se referir a mulher ou menina, virando feminino, portanto, e transformando-se em adjetivo qualificativo.
Caio, de 6 anos, comenta:
- Mãe, tinha uma menina macha lá na pracinha que queria brigar com o Gu.
À pág. 54, diz Mário, de 3 anos, referindo-se à sua avó:
- É bonzinha.
Para a criança, a formação dos diminutivos que têm um antecedente com uma irregularidade em sua construção é mais uma questão de 'falta', e não de erro, pois aos 3 anos ela já incorporou a terminação do feminino e, evidentemente, a irregularidade exige maior tempo de assimilação.
À pág. 39, temos um exemplo de incompreensão semântica: o verbo ‘preferir' exige exclusão de algo comparado, implicitamente ou não, a outra opção. Em seu significado excludente, só sobrará uma opção. Aos 5 anos, essa aquisição ainda não ocorreu, como podemos verificar no diálogo entre Caio e sua mãe.
- Qual das duas você prefere?
- Prefiro as duas.
A parte da lexicografia e, em grande medida, a de semântica, é aqui tratada em abundância, como veremos em alguns exemplos a seguir. Assim, notamos que a aquisição de diminutivos e aumentativos é um reflexo do que a criança já escutou, mesmo a de tenra idade, e que aprende a formar rapidamente. Sabe-se que o processo de imitação dos adultos com quem convive ou que frequentam sua casa desempenha um papel fundamental. Seguem exemplos:
À pág. 72, Ana Carolina, de dois anos, responde à oferta de comida:
- Não, obrigada. Já comi um "tantão".
À mesma página, a avó falou ao neto Chico, de 3 anos:
- O seu pai é meu filhinho.
- Vó, meu pai é grandão. É seu filhão.
À pág. 154, Luísa, de 4 anos, referindo-se à sua receita de bolo, diz:
- Vai ficar “supergostoso”.
Vemos aqui, e em outros exemplos, a "necessidade", ou melhor, o prazer que a criança tem de exagerar, o que também tem uma porcentagem de imitação, mas é uma busca também de uma certa normalidade. Há estudiosos que pendem para o lado afetivo e ainda para o egoísmo inerente às crianças pequenas. Falaremos brevemente dessa ênfase afetiva mais adiante. Linguisticamente definiríamos os graus de adjetivos e substantivos como sintéticos ou analíticos, sendo ambos abundantemente utilizados.
Os exemplos são inúmeros e citaremos alguns que implicam mais a questão do significado, da semântica em si. Veremos que o antecedente pode ser fonético, por associação ou por outra razão ligada à imitação, o que nem sempre é adequado. De todas as formas, as observações já feitas com relação à morfologia e lexicografia ocupam, tal como assinalam A.Leontiev, N.Chomsky, Slama-Cazacu, entre outros pesquisadores como Piaget, um lugar privilegiado na aquisição da língua materna. As tiradas apresentadas por M. T. GODOY exemplificam e corroboram o que estamos apreciando.
Assim, à página 67, o significado de "voar" não tem a ver com asas, e sim com a sensação de "estar no ar".
Ana Carolina, 2 anos, diz ao avô que a balançou no ar, deitada:
- Vovô, quero voar outra vez.
À página 127, Luísa B. , de 7 anos, diz a sua avó:
- Vó, tenho que fazer uma pesquisa sobre “afrobanguelas”.
- Como assim?
- Ora, vó, sobre “afro-de-sem-dentes”.
A razão da confusão pode ser (ainda) fonética, mas apostamos na semântica, pois a menina já sabia muito bem o que "banguela" significava. Atente-se para a sua idade. Temos aqui um caso de criação lexicográfica: separação silábica inexistente atualmente (afrobanguelas) e separação possível porque explicativa ( afro-de-sem-dentes). O fato de a menina ter ultrapassado os 5 anos remete à Psicolinguística, que reúne as duas disciplinas. Outros exemplos semelhantes aparecem no livro, confirmando as teorias há muito tempo vigentes, mas que a Linguística Aplicada ao ensino de línguas estrangeiras parece ignorar, a meu ver e a meus mais de 40 anos de ensino, inclusive de línguas declinadas, como o russo.
Explicando e exemplificando a lexicografia e a semântica, vejamos alguns exemplos que comprovam a internalização muito rápida da morfologia da língua materna. Atente-se para a idade das crianças. Recordemos: elas têm uma ideia da "coisa" da qual querem falar, mas têm dúvidas. Então criam morfologicamente correta a palavra, na tentativa de acertar, sabendo que serão compreendidas. É evidente que aqui, a imitação morfológica já percorreu a cabecinha da criança, mas não forçosamente o léxico que deve ser empregado naquele caso específico.
À página 121, Benjamim, de 7 anos, ficou de castigo na escola porque “correu no corredor”. Seu comentário é cheio de lógica. Segundo ele, deduz-se que a língua falhou:
- Deviam falar andador e não corredor.
À página 120, João, de 5 anos, ao colocar uma touca de banho na cabeça, disse:
- Eu sou um "avioneiro".
Compare-se com "padeiro", "porteiro", "engenheiro", "carpinteiro" etc., palavras que ele já deve ter escutado, cuja terminação (eiro) indica profissão. Por que não "avioneiro"? Aqui temos imitação e lógica, além da morfológica utilização da terminação desse tipo de substantivo.
À página 138, Guilherme, de 3 anos, responde à pergunta da priminha de como era o mar.
- É uma piscina que tem um lado só.
As crianças começam muito cedo a definir. Então esse menino define rapidamente o mar, a partir de seu universo de conhecimentos.
Uma dificuldade maior tem relação com os conceitos de espaço e de tempo. Recordemos que o homem primitivo tinha os mesmos problemas, já que o 'aqui' e o 'agora' eram seu mundo. Daí a falta de "futuro" nas línguas antigas - o grego clássico e ́um exemplo, não sendo a única. A criança de nossos dias fala do que fará quando crescer, mas isso porque seus pais ou avós mencionam essa preocupação, com a qual ela se identifica e tenta se acomodar. Na realidade, quando o conceito de espaço parece "adquirido", é mais o conceito de “aspecto” que a criança maneja, como em certas línguas de formação pré-histórica - como o kraho, aqui no Brasil, ou o russo, na Rússia, com suas influências do eslavo antigo.
Observação: não encontrei nenhum futuro simples nos exemplos de M. T. Godoy. Quanto aos exemplos de aspecto, pareceu-me que estão velados.
Seguem alguns exemplos da confusão entre espaço e tempo, que em muitos casos refletem um desconhecimento de "gradação", de "quantidade", o que remete à aritmética.
À página 124, Bruno, de 2 anos, pergunta:
- Se eu correr muito rápido, eu chego na Lua?
Observemos que o uso da preposição em mais o artigo a é contraído. "Na", em lugar de "à", é uma imitação da fala adulta, já que pelo menos 90 por cento dos brasileiros trocam a preposição "a" por "em". Observamos ainda o uso aspectual de "muito rápido", seguindo os passos da formação das línguas primitivas e contemporâneas, muitas delas ergativas ou split ergatives. Atente-se para a pouca idade do falante.
À página 129, Samuel, de 4 anos, diz:
- Eu quero ficar um milhão de anos na casa da vovó.
Note-se que a criança sabe o que é "muito" e o que é "pouco", mas ainda não adquiriu a noção exata de quantidade, sendo que o exagero às vezes provoca risadas.
À página 29, Caio, de 5 anos, pergunta a sua mãe:
- Mãe, com quantos anos a gente nasce?
Mais uma vez, percebemos que a questão temporal ocupa um papel importante e está muito presente na preocupação da criança com a compreensão da prolongação da vida. Não é diferente no aluno adulto de línguas estrangeiras que, mesmo tendo uma boa ideia dos limites da vida, quer saber se " a língua X tem muitos tempos verbais", como se isso fosse um empecilho para saber quando utilizá-los. Se tomarmos por base o português, que tem muitos tempos verbais, entre simples e compostos, verificaremos que nosso aluno os usa sem pensar, pois não sabe que sabe. O aluno de russo, por exemplo, surpreende-se ao ser informado que o russo só tem cinco tempos: um presente, dois passados e dois futuros. É quando "aplico minha filosofia”, por assim dizer: língua difícil é aquela que você não quer aprender.
À página 129, Isabel Cristina, de 6 anos, pergunta:
- Mãe, quando é que vamos ao "pernatologista"?
Alguém havia comentado sobre a lesão que a criança tinha na perna e sugerido que um dermatologista deveria ser consultado. A criança associou "pernatologista", uma vez que a lesão era na perna, por imitação, a "dermatologista".
APRENDENDO A CONTAR
Para classificar as personagens "crianças ", eu tinha que passar por um momento de aprendizagem assaz importante na nossa sociedade de consumo: aprender a contar. Aqui surge uma grande diferença entre a aquisição da contagem na língua materna pelas crianças indígenas - nas quais nos baseamos pela nossa própria experiência - e essa aquisição pelos infantes confrontados com uma sociedade que funciona o tempo todo com números, seja para comprar algo ou fazer as operações de somar, dividir, multiplicar e diminuir. Ora, essa problemática é mais do nosso mundo capitalista e, em geral, urbanizado. Não presenciei isso na aldeia kraho , nunca. Talvez os homens adultos dominassem essa "técnica", quando iam à cidade mais próxima por razões comerciais ou, às vezes, por doença.
No livro de M.T.GODOY, encontramos vários exemplos que coincidem com a observação da criança aos dedos de sua mão. Há só cinco dedos, seja na direita, seja na esquerda. Para a difícil operação de multiplicar por dois, duas mãos iguais, com cinco dedos iguais, vai dar dez. Mas, em geral, só usam uma mão para contar.
Gostaria de sublinhar que a língua guarani, falada no Paraguay , com suas variantes no sul do Brasil , foi-me ensinada, e a contagem era até 100 . Trata-se de uma criação forçada pelos padres e estudiosos da língua, já que, como língua nacional, compartindo essa atribuição ao lado do espanhol, não possuía originalmente esse vocabulário de contagem.
A segunda observação tem a ver com a contagem feita em alguns grupos indígenas brasileiros que só têm três números, equivalentes aos dedos polegar, indicador e médio - os dedos mais ativos e importantes. Logo, seu léxico aritmético conta com "um", "dois” e "três", somente.
Com relação à aprendizagem dos numerais cardinais pelos adultos que estudam uma língua estrangeira, em geral, além de memorizar os números, não há maiores dificuldades. Assinalamos a existência de gêneros masculino, feminino e às vezes neutro, para os números. Em espanhol, por exemplo, não há feminino para o numeral cardinal dois. Desta forma, eles dirão: dos casas.
Assim , mesmo que a criança de país "urbanizado", morando na cidade, comece a sentir menos dificuldade depois dos 6 ou 7 anos, ela recorrerá aos dedos das mãos durante muitos anos. Vejamos alguns exemplos do livro analisado, onde se nota a "confusão" com as noções de tempo:
À pág. 29, Caio, de 5 anos, pergunta:
- Mãe, com quantos anos a gente nasce? Assim com um e meio?
Expliquei que era com zero anos, explicação-mor do irmão.
Deduzimos que a mãe sabia que aquela resposta ele recebera do seu irmão mais velho. Ele pergunta, porque quer ter a confirmação, Para ele é óbvio que a noção de "zero" inexiste, já que "zero" não tem nenhum sentido, é a negação de qualquer coisa e, mais ainda, de alguém, um bebê. Quando estudamos as civilizações antigas, ressalta-se a "invenção do zero", atribuída aos maias, quando na verdade havia sido descoberta antes, pelos olmecas. O conhecimento de um algoritmo que só tem sentido quando depende dos outros demorou, na História da Humanidade, e seus vestígios são hoje encontrados nas verbalizações das crianças, que fazem mais reflexões do que pensamos.
Vejamos outro exemplo:
Às páginas 65 e 66, a avó conta sobre Chico, de 3 anos:
Conhece todas as cores, tem perfeita noção de tamanho, é craque nos quebra-cabeças e conta até... 27, 28, 29 ,10. A vó tentou ensinar o 30, mas ele persistia no 10.
Neste exemplo, força é reconhecer que esse menino é muito “amadurecido" para sua idade, pois conseguiu " somar os dedos das duas mãos, já que 6 a 10 prosseguem na segunda mão. Os números seguintes, até 29, são para ele uma repetição. O que é lógico, para ele, é a contagem de 1 a 10. Sua avó tentava "avançar" na abstração, mas a criança, em casos como esse, é pragmática. Daí sua insistência em voltar ao 10, o que para ele faz sentido.
COMENTÁRIOS FINAIS DO LIVRO DE M.T.GODOY
Observemos o exemplo abaixo de um menino de 13 anos que não só se afasta já da infância de cinco-seis anos, mas tem agora outro raciocínio, e se sente uma pessoa igual a seus pais e aos adultos em geral. Pode ser um exemplo psicológico, mas não somente. Há uma certa lógica, diferente daquela das crianças mais jovens.
À pág. 89, Felipe, de 13 anos, furioso com sua mãe, diz a ela:
- Quando você briga comigo, você está brigando com você mesma, ́ porque a gente é igual.
No exemplo seguinte, a criança observa, com mais atenção do que nós, adultos, percebemos, esse "dehors" (o afora) do qual Sartre falara, sem se preocupar com aquisição nem com aprendizagem.
À página 125, Chico, de 7 anos, dialoga com a avó.
- Vovó, você é milionária?
- Claro que não. Por que você está perguntando isso?
- Porque você tem três casas.
- Compradas com muito sacrifício e trabalho.
-Você é rica?
- Rico é quem gasta menos do que ganha. Eu e seu avô estamos sempre gastando mais do que ganhamos.
- Se eu fosse milionário, eu dava mil reais para os pobres.
Vemos aqui a curiosidade do garoto que, nessa idade, já se deu conta das diferenças que há entre as pessoas: umas têm mais do que outras. A Sociologia e a Sociolinguística assim denominam essas diferenças: classes sociais. A criança quer entender o critério, daí as perguntas e, se no quadro da própria família, melhor. Isso aconteceu em minha casa: minha filha de uns sete ou oito anos perguntou ao seu avô se éramos classe média. O léxico escolhido pelo menino, “rica”, “milionária”, indica bem o conhecimento de seus antônimos. O fato do menino dizer que daria "mil reais" a cada pobre implica a generosidade das crianças, inúmeras vezes ressaltada pelos exemplos de M. T. Godoy - sem que a idade do infante importasse - e implica também o reconhecimento de que a vida do pobre é mais difícil. Evidentemente, a Economia não entra ainda nesse "dehors", porque mil reais não é um valor para mudar a classe social de ninguém. Atente-se para o uso do numeral "mil" como o maior valor que a criança considera poder resolver qualquer dificuldade.
Na aprendizagem da língua estrangeira pelo adulto, essa transição cultural e etária não se dá, e é aqui que a sintaxe dominada e o bom conhecimento do léxico ajudarão mais na escrita, habilidade mais fácil para ele do que a habilidade oral.
Se o livro de M. T. Godoy poderia ser classificado de coletânea ou de uma compilação de tiradas de crianças, é certo que ele não só remete a questões linguísticas, as quais nos servem humoristicamente como a confirmação dos passos que as levam, e a nós, à aquisição da língua materna, mas também - sem se propor – dá-nos algumas pistas para a aquisição da língua materna. Queremos ressaltar que, além disso, confirma o que vários teóricos, linguistas aplicados e psicólogos, em particular, disseram sobre a imersão na língua estrangeira, que não é apenas linguística, mas também cultural.
Destacamos alguns exemplos, assinalando que a Lógica já apareceu, e aliás parece que não se limita tão acertadamente aos pós cinco anos de idade. Piaget coloca uma espécie de fronteira nesse momento, mas ela não é inflexível. O leitor concluirá, por si mesmo, através dos exemplos apresentados. Lembramos que há neles elementos de Sociologia, História, Filosofia, Aritmética, Economia, Poesia etc., e também de personalidade, como egoísmo, ciúme, afeto, teimosia, agressividade, compaixão etc., elementos que costumamos pensar que são do rol da Psicologia.
Como havíamos pensado, e dado um ou dois exemplos das observações das crianças que têm mais de cinco anos, aqui oferecemos mais exemplos. Concordando em geral com Piaget, reproduzimos abaixo mais um exemplo desse "afora" (dehors), que começa a intrigar cada vez mais as crianças, sempre muito observadoras. Não vamos aqui falar do mencionado "egoísmo" dos infantes, não só pela profunda especificidade do tema, mas também porque nosso objetivo é tratar das noções de aquisição e de aprendizagem. Já sublinhamos que a língua não-materna aprendemos, e necessitamos , em princípio, de um professor. Com relação à lingua materna, tudo e todos servem , sem diplomas. Qualquer pessoa familiar ou amiga, sem importar a idade nem o sexo, ajuda nesta aquisição. A nacionalidade, sim. Dito de outra forma, a criança aos três, quatro anos, já é capaz de distinguir o sotaque de algum estrangeiro, tentando falar a língua dela, a materna.
Voltando ao que está dentro (dedans) e ao que está fora (dehors) - noções também utilizadas por Sartre - a curiosidade pelo que está fora aumenta, conforme a criança se afasta das idades menores. Assim, a sociedade lá fora lhes chama muito a atenção. Aparecem no livro de M. T. Godoy inúmeros exemplos que incluem:
-- Classes sociais
-- Riqueza x pobreza
-- Profissões
-- Religião
-- História
-- Geografia
-- Solidariedade
-- Sentimento de impotência
-- Aumento do conceito de lógica
-- Conhecimentos gerais etc.
CONCLUSÃO
O livro em questão, aparentemente inclassificável, é na verdade um compêndio, principalmente para os objetivos do presente ensaio. Serviu-nos para enriquecer nossas reflexões sobre a aquisição da língua materna e a aprendizagem de uma língua estrangeira pelo adulto. Além disso, recorremos à nossa experiência pessoal com a comparação da aquisição da língua materna, pelas crianças indígenas, e a minha tentativa de, já adulta, aprender o kraho, o ofayé e o guarani. Aí entra em cena a Etnolinguística e minha forçada necessidade de voltar à infância e abandonar os preconceitos já muito arraigados. Nós nos baseamos nas leituras realizadas há mais de meio século, sobretudo por especialistas em Psicolinguística, em Linguística Teórica e Aplicada e em Psicologia, mas a inovação de uma pesquisa voltada para a aprendizagem e a aquisição de uma outra língua desconhecida, e estruturalmente diferente, tem a ver com nossa prática, ligada a uma Etnolinguística e a uma Psicolinguística desconhecida para nós. E assim mencionamos o russo Alexey Leontiev , filho do maior psicolinguista da URSS; a romena Slama-Cazacu, psicolinguista famosa, cujo livro principal foi traduzido por nós do francês; o famoso psicólogo Piaget e o não menos conhecido linguista N. Chomsky etc.
Além do exposto, fora a questão fonética - muito ligada à Fonologia e facilmente adquirida pela criança, mas difícil para o adulto - ressaltamos a estrutura sintática, logo adquirida, e a classe difícil da Lexicografia, aparentemente sempre menos complicada para o adulto bem preparado, já que o léxico depende da semântica, campo infinito da língua, comparado com as outras categorias finitas. E, evidentemente, exige uma vivência que a criança ainda não tem. Nessas questões, gostaríamos de ressaltar a disciplina que aparentemente "une" a criança e o adulto. Trata-se da Lógica, um dos únicos temas semânticos não “perdidos" pelos indígenas, mas pouco a pouco excluído do uso na língua materna pelos adultos. Ou mesmo, muito rapidamente excluído por eles. Damos aqui um exemplo meu, a autora dessas linhas, trabalhando com um índio kraho, um de meus dois informantes.
Eu perguntei a Kakró (o nome do índio, como se diz em kraho) :
- O macaco comeu a carne com a mão?
Houve um silêncio, como resposta. Insisti e repeti a pergunta. Ele observou, e disse, com muito respeito:
- Melhor com a boca.
Eu imediatamente concordei:
- Você tem razão.
E corrigi a frase:
- O macaco comeu a carne com a boca?
Outra vez silêncio. Após uma pausa, ele observou:
- Melhor a banana.
Assim, há inúmeros exemplos de ilogicidade praticados pelos adultos que moram principalmente em zonas urbanas. O que parece evidente e compreensível para o cidadão branco ou brancóide, o não índio, não o é para o nativo , e ele e a criança não vão admitir algo que não existe.
Para a teoria de Piaget de que a criança vai começar a "olhar" para o que está fora de seu "universo", a partir dos seis anos - demonstrando inclusive uma capacidade de raciocínio que chega até a abstração - o livro de M.T.GODOY nos dá inúmeros exemplos. Há citações que se referem a Conhecimentos Gerais, História, Economia e dinheiro, Sociologia etc. Observamos, entretanto, que há exceções, há crianças precoces e outras, a caminho da adolescência, que se calam. E há razões para isto, algo que não desenvolvemos aqui.
O livro "Crianças e suas tiradas” valeu-nos mais para desenvolver a comparação entre aquisição e aprendizagem de línguas, talvez porque conte com um maior número de tiradas de infantes entre 2 e 6 anos, e cremos que a Etnolinguística também tem seu aporte, Excelente compêndio, serve de uma fantástica ajuda para a Psicolinguística, para a Psicologia, para a Etnolinguística, para a Matemática (observaram que a abstração do zero não existe para os pequenos), para a Filosofia ( a Lógica), a Poesia, a Música, a Pedagogia etc. Independentemente de suas intenções, desejamos que esses profissionais aprendam, rindo, com as crianças.
* “Boulevard é a expressão usada para as peças populares dos teatros do Boulevard du Temple e outras avenidas, em Paris.
** René-Charles Guilbert de Pixerécourt (1773-1844) era dramaturgo, diretor de teatro e tradutor literário francês . Suas peças teatrais alcançaram grande sucesso, em sua época, sendo assistidas tanto por nobres como por pessoas analfabetas, que constituíam a grande maioria de suas plateias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHOMSKY, Noam . Estruturas Sintáticas. Ed. Vozes, 2015.
_______________ . Linguagem e mente. Ed. UNESP, 2009.
_______________ . Sobre Natureza e Linguagem. Ed. Martins Fontes, 2019.
Godoy, M. T (2023). Crianças e suas tiradas. Jundiaí, SP: Selo Editorial (Telucazu Edições), 2023 .
LEONTIEV, Alexey. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. Ed. Icone, 2017.
SLAMA-CAZACU, Tatiana. Psicolinguística Aplicada ao Ensino de Línguas. Ed. Pioneira, 1979.
TITULAÇÕES DE ROSELIS BATISTAR
• Licenciatura em Filologia Russa. Faculdade de História e Filologia da Universidade Patrice Lumumba, Moscou, 1973.
• Mestrado em Linguística . Faculdade de História e Filologia da Universidade Patrice Lumumba, Moscou. 1974.
• Professora de Linguística na Escuela Nacional de Antropología e Historia (ENAH), México. 1981-1984.
• Bolsista do CNPq em Etnolinguística e professora de Linguística; Universidade Federal de Goiás , Goiânia, GO.1986-1989.
• Professora de Linguística na formação de tradutores na Universidade Estadual Paulista, Rio Preto, SP, 1989-1993.
• Professora de Espanhol e Civilização Hispânica, Língua e Literatura Portuguesa e Cinema Latino-americano do Departamento de Línguas Neolatinas na Université de Reims - Champagne-Ardenne, 1994-2008
TRABALHOS PUBLICADOS de ROSELIS BATISTAR
• La Psicolinguística y su empleo. Dirección de Memoria (Mestrado) en la ENAH - Escuela Nacional de Antropología e Historia, Ciudad de México,1977.
• Vários artigos sobre a língua kraho na Revista do Ceiman. Centro de Estudos Indígenas da UNESP de Araraquara, S.P, 1988 a 1991.
• Elementos para o estudo das relações espaciais, aspectuais e temporais. Rev. Alfa, n°33; UNESP, 1989.
• A língua como veículo de resistência cultural: o caso Kraho e a influência do português. Terra Indígena, n°63, UNESP, 1992.
• Panorame des langues indigènes du Brésil” en collaboration avec Marymarcia Guedes. Recherches Brésiliennes, n°527, Université de Besançon, Paris, 1994.
• Village indien et centre urbain : relations interculturelles. Les Krahos du Tocantins. Regards sur la ville et la campagne au XXème siècle ; Université de Toulouse Le Mirail, 1997.
• La obra de Nísia Floresta en el siglo XIX en Brasil. Trabalho apresentado nas Jornadas Culturales de la UAM, Mexico, julho de 2007.
• Lírica ni siempre amorosa. Cenzontle, Grupo Editorial, México 2007.
TRABALHOS PUBLICADOS de MARIA TEREZA B. M. GODOY
• A Burigada-mor. Crônica. In Brasil & Italia = Brasile & Italia: dois países: uma só alma = due paesi: una sola anima/org.: Rosalie Gallo Y Sanches, Márcio Martelli – Jundiaí, SP: Ed. In House, 2022, p. 198.
• Reflexões ao pé de um computador. Crônica. In 1º Concurso de crônicas Professor Sérgio Vicente Motta./org. Rosalie Gallo y Sanches/coord. Arlec. Jundiaí, SP. Ed. In House, 2023, p. 106.
• Crianças e suas tiradas/ Maria Tereza Búrigo Marcondes Godoy. – Jundiaí, SP: Selo Editorial, 2023 (Telucazu Edições)
Para adquirir a obra “Crianças e suas tiradas”, consultar:
www.seloeditorial.com.br/mariaterezagodoy
email: terezagodoy1945@gmail.com
A reflexão que me assaltou, depois de voltar da aldeia, era ligada ao pensamento. A leitura daquele artigo sobre lógica e pensamento remetia-me a Chomsky, que eu lia muito naquela época. Agarrava-me a seu aparente otimismo, que defendia a ideia de que qualquer criança podia adquirir qualquer língua, e comecei a tentar “pensar sem pensamento”, ou melhor, sem língua, - sem aquela língua, kraho, por exemplo - mas com lógica. Para isso, eu cria, precisava voltar a ser criança. Apesar de minhas práticas no terreno, ainda estava tudo muito cru em minha cabeça, mas depois de um mês, eu escutava os índios homens falando, e já sabia qual era o assunto de que falavam. Naquele momento, não dera muita atenção a meus progressos “infantis”, digamos assim, pois a descrição fonética da língua e sua estrutura semi-ergativa, por exemplo, eram mais relevantes para a etnolinguista que eu era.
Isto havia ocorrido há pelo menos 20 anos. Mas a história não acabara. Chegou o livro de M. T. Godoy que, indiretamente, remeteu-me ao passado, às minhas hipóteses que não aceitaram o balde de água fria. Alguma razão eu tinha e tenho.
Estamos, em princípio, diante de um livro-passatempo. É o que pensamos, à primeira vista, ao ler o título “Crianças e suas tiradas”. Aliás, acredito que a maioria dos leitores considera esta compilação um motivo de divertimento.
É evidente que a autora não pensou em fazer um tratado linguístico, nem social e nem psicológico de sua compilação que, a julgar pela densidade de exemplos, levou anos. Mas a seleção dá margem à questão cultural, que evidentemente ela sabia que sairia da boca das crianças. Também há exemplos de História, Lógica, Matemática, Filosofia etc.
Do ponto de vista da comunicação, o tema da aprendizagem de línguas ocupa um lugar relevante. É a aquisição de um instrumento de contato com seus semelhantes, o que é fundamental para as crianças novas. Não me arrisco a dizer que tal tema não tenha passado pela cabeça dessa ex-professora de língua estrangeira. E, consta-me, ela o foi durante anos.
O tema da linguagem e do pensamento também voltou à minha mente. A famosa questão do que surgiu primeiro martelava meu cérebro com aquela perguntinha de leigos, muito repetida: o que surgiu primeiro, o ovo ou a galinha? Pensando bem, a aquisição da língua materna ajuda a elucidar o problema que é, em geral, olvidado pelos vários métodos de aprendizagem de uma língua outra que não a materna. Notem, falei aprendizagem, não aquisição. Será que uma inversão é possível? Mas vamos ficar com o que é certo: o livro disserta indiretamente sobre a imperiosa necessidade de afeto que passa, evidentemente, pela comunicação. E mesmo que esta possa se dar de várias formas, a criança vai concluir que se comunica melhor falando.
A esta altura, o que o livro sui generis de M. T. Godoy tem a ver com isso? Respondo: TUDO. Através das 'tiradas' de crianças, a maioria com menos de 5 anos - mesmo que as mais 'velhas' até 12 anos tenham sua importância - , ela presenteia o público leitor com nossos primeiros passos linguísticos, psicológicos, comunicativos, afetivos, sociológicos, filosóficos etc. e, claro, humorísticos.
Literariamente, o livro não se enquadra nem no gênero conto nem crônica, e menos ainda no romance. Nós somos as personagens ‘ocultas' - no sentido de não reveladas como tais - simbolizadas pela narradora onisciente, que explica cada contexto particular onde ocorreu o fato, nem sempre humorístico. A narradora se preocupou em especificar o nome e a idade da criança e, em certas ocasiões, o lugar da enunciação. Assim, mais próximo a um banco de dados, ou a fragmentos de cartas que reproduzem diálogos, ou ainda a um teatro de 'boulevard'* - que poderia transformar-se depois num Pixerécourt** do século XX, fazendo parte de uma programação televisiva, o volume contém mais de 120 tiradas, distribuídas em 157 páginas. A maioria das tiradas são de crianças entre 2 e 5 anos, justamente naquela faixa etária que Piaget tanto prezava. Minhas leituras passadas se iluminaram na memória. Jakobson também surgiu nas lembranças e eu resolvi procurar na memória aquelas leituras.
A FALTA E O ERRO
Na aquisição da língua materna - assim denominada porque, em geral, é a mãe a que está mais tempo em contato com a criança - as tergiversações que porventura a mãe use (com vocabulário que ela inventa, com a “fabricação” de diminutivos, que ela utiliza abundantemente, mesmo forçando a tonalidade de sua voz para mais aguda) não prejudicarão em nada a aquisição da língua materna, cujo arcabouço de base será sempre o mesmo. Desde o princípio, a criança percebe os artifícios linguísticos de sua mãe, avó, babá ou alguma pessoa querida e carinhosa. A estrutura do português, no caso, continuará sendo SVO (sujeito, verbo, objeto), com chiados e palavras inventadas, ou não.
Nesse processo de aquisição, o mais comum e repetitivo será usado pela criança, que não erra, quando diz 'eu podo', em lugar de 'eu posso'. Ela escutou 'eu como', ‘eu corro' etc. e internalizou a regularidade da língua. Somos nós, adultos, que em geral cometemos erros que também seriam faltas, se um professor de inglês, por exemplo, entendesse que o aluno assimilou a regra da regularidade dos verbos no passado, como, por exemplo, o ‘ed’. Por isso, às vezes o aluno dirá he drinked ao invés de he drank, que é irregular. Isso já é um avanço. E na criança não é diferente. Todas elas passam por essa fase e a 'corrigem' logo.
O livro em questão está repleto de exemplos do que acabamos de afirmar, ou seja, que a criança, em seu afã de ser aceita e querida pelas pessoas com quem convive e que conhece, vai internalizar, em primeiro lugar, a estrutura da língua, e é sobre ela que os outros elementos semânticos vão aparecendo. Por isso é que os exemplos morfológicos e lexicográficos são mais encontrados que qualquer desvio na sintaxe. O que, aliás, mesmo estando na terceira leitura, não encontrei, como já previra. Vejamos alguns exemplos:
À página 46, temos um problema morfológico de gênero pela terminação o para masculino e a para feminino. Aí entra a semântica da definição de sexo, algo difícil, em princípio, para a criança entender. Assim, o substantivo 'macho’ pode comportar uma terminação em a, se se referir a mulher ou menina, virando feminino, portanto, e transformando-se em adjetivo qualificativo.
Caio, de 6 anos, comenta:
- Mãe, tinha uma menina macha lá na pracinha que queria brigar com o Gu.
À pág. 54, diz Mário, de 3 anos, referindo-se à sua avó:
- É bonzinha.
Para a criança, a formação dos diminutivos que têm um antecedente com uma irregularidade em sua construção é mais uma questão de 'falta', e não de erro, pois aos 3 anos ela já incorporou a terminação do feminino e, evidentemente, a irregularidade exige maior tempo de assimilação.
À pág. 39, temos um exemplo de incompreensão semântica: o verbo ‘preferir' exige exclusão de algo comparado, implicitamente ou não, a outra opção. Em seu significado excludente, só sobrará uma opção. Aos 5 anos, essa aquisição ainda não ocorreu, como podemos verificar no diálogo entre Caio e sua mãe.
- Qual das duas você prefere?
- Prefiro as duas.
A parte da lexicografia e, em grande medida, a de semântica, é aqui tratada em abundância, como veremos em alguns exemplos a seguir. Assim, notamos que a aquisição de diminutivos e aumentativos é um reflexo do que a criança já escutou, mesmo a de tenra idade, e que aprende a formar rapidamente. Sabe-se que o processo de imitação dos adultos com quem convive ou que frequentam sua casa desempenha um papel fundamental. Seguem exemplos:
À pág. 72, Ana Carolina, de dois anos, responde à oferta de comida:
- Não, obrigada. Já comi um "tantão".
À mesma página, a avó falou ao neto Chico, de 3 anos:
- O seu pai é meu filhinho.
- Vó, meu pai é grandão. É seu filhão.
À pág. 154, Luísa, de 4 anos, referindo-se à sua receita de bolo, diz:
- Vai ficar “supergostoso”.
Vemos aqui, e em outros exemplos, a "necessidade", ou melhor, o prazer que a criança tem de exagerar, o que também tem uma porcentagem de imitação, mas é uma busca também de uma certa normalidade. Há estudiosos que pendem para o lado afetivo e ainda para o egoísmo inerente às crianças pequenas. Falaremos brevemente dessa ênfase afetiva mais adiante. Linguisticamente definiríamos os graus de adjetivos e substantivos como sintéticos ou analíticos, sendo ambos abundantemente utilizados.
Os exemplos são inúmeros e citaremos alguns que implicam mais a questão do significado, da semântica em si. Veremos que o antecedente pode ser fonético, por associação ou por outra razão ligada à imitação, o que nem sempre é adequado. De todas as formas, as observações já feitas com relação à morfologia e lexicografia ocupam, tal como assinalam A.Leontiev, N.Chomsky, Slama-Cazacu, entre outros pesquisadores como Piaget, um lugar privilegiado na aquisição da língua materna. As tiradas apresentadas por M. T. GODOY exemplificam e corroboram o que estamos apreciando.
Assim, à página 67, o significado de "voar" não tem a ver com asas, e sim com a sensação de "estar no ar".
Ana Carolina, 2 anos, diz ao avô que a balançou no ar, deitada:
- Vovô, quero voar outra vez.
À página 127, Luísa B. , de 7 anos, diz a sua avó:
- Vó, tenho que fazer uma pesquisa sobre “afrobanguelas”.
- Como assim?
- Ora, vó, sobre “afro-de-sem-dentes”.
A razão da confusão pode ser (ainda) fonética, mas apostamos na semântica, pois a menina já sabia muito bem o que "banguela" significava. Atente-se para a sua idade. Temos aqui um caso de criação lexicográfica: separação silábica inexistente atualmente (afrobanguelas) e separação possível porque explicativa ( afro-de-sem-dentes). O fato de a menina ter ultrapassado os 5 anos remete à Psicolinguística, que reúne as duas disciplinas. Outros exemplos semelhantes aparecem no livro, confirmando as teorias há muito tempo vigentes, mas que a Linguística Aplicada ao ensino de línguas estrangeiras parece ignorar, a meu ver e a meus mais de 40 anos de ensino, inclusive de línguas declinadas, como o russo.
Explicando e exemplificando a lexicografia e a semântica, vejamos alguns exemplos que comprovam a internalização muito rápida da morfologia da língua materna. Atente-se para a idade das crianças. Recordemos: elas têm uma ideia da "coisa" da qual querem falar, mas têm dúvidas. Então criam morfologicamente correta a palavra, na tentativa de acertar, sabendo que serão compreendidas. É evidente que aqui, a imitação morfológica já percorreu a cabecinha da criança, mas não forçosamente o léxico que deve ser empregado naquele caso específico.
À página 121, Benjamim, de 7 anos, ficou de castigo na escola porque “correu no corredor”. Seu comentário é cheio de lógica. Segundo ele, deduz-se que a língua falhou:
- Deviam falar andador e não corredor.
À página 120, João, de 5 anos, ao colocar uma touca de banho na cabeça, disse:
- Eu sou um "avioneiro".
Compare-se com "padeiro", "porteiro", "engenheiro", "carpinteiro" etc., palavras que ele já deve ter escutado, cuja terminação (eiro) indica profissão. Por que não "avioneiro"? Aqui temos imitação e lógica, além da morfológica utilização da terminação desse tipo de substantivo.
À página 138, Guilherme, de 3 anos, responde à pergunta da priminha de como era o mar.
- É uma piscina que tem um lado só.
As crianças começam muito cedo a definir. Então esse menino define rapidamente o mar, a partir de seu universo de conhecimentos.
Uma dificuldade maior tem relação com os conceitos de espaço e de tempo. Recordemos que o homem primitivo tinha os mesmos problemas, já que o 'aqui' e o 'agora' eram seu mundo. Daí a falta de "futuro" nas línguas antigas - o grego clássico e ́um exemplo, não sendo a única. A criança de nossos dias fala do que fará quando crescer, mas isso porque seus pais ou avós mencionam essa preocupação, com a qual ela se identifica e tenta se acomodar. Na realidade, quando o conceito de espaço parece "adquirido", é mais o conceito de “aspecto” que a criança maneja, como em certas línguas de formação pré-histórica - como o kraho, aqui no Brasil, ou o russo, na Rússia, com suas influências do eslavo antigo.
Observação: não encontrei nenhum futuro simples nos exemplos de M. T. Godoy. Quanto aos exemplos de aspecto, pareceu-me que estão velados.
Seguem alguns exemplos da confusão entre espaço e tempo, que em muitos casos refletem um desconhecimento de "gradação", de "quantidade", o que remete à aritmética.
À página 124, Bruno, de 2 anos, pergunta:
- Se eu correr muito rápido, eu chego na Lua?
Observemos que o uso da preposição em mais o artigo a é contraído. "Na", em lugar de "à", é uma imitação da fala adulta, já que pelo menos 90 por cento dos brasileiros trocam a preposição "a" por "em". Observamos ainda o uso aspectual de "muito rápido", seguindo os passos da formação das línguas primitivas e contemporâneas, muitas delas ergativas ou split ergatives. Atente-se para a pouca idade do falante.
À página 129, Samuel, de 4 anos, diz:
- Eu quero ficar um milhão de anos na casa da vovó.
Note-se que a criança sabe o que é "muito" e o que é "pouco", mas ainda não adquiriu a noção exata de quantidade, sendo que o exagero às vezes provoca risadas.
À página 29, Caio, de 5 anos, pergunta a sua mãe:
- Mãe, com quantos anos a gente nasce?
Mais uma vez, percebemos que a questão temporal ocupa um papel importante e está muito presente na preocupação da criança com a compreensão da prolongação da vida. Não é diferente no aluno adulto de línguas estrangeiras que, mesmo tendo uma boa ideia dos limites da vida, quer saber se " a língua X tem muitos tempos verbais", como se isso fosse um empecilho para saber quando utilizá-los. Se tomarmos por base o português, que tem muitos tempos verbais, entre simples e compostos, verificaremos que nosso aluno os usa sem pensar, pois não sabe que sabe. O aluno de russo, por exemplo, surpreende-se ao ser informado que o russo só tem cinco tempos: um presente, dois passados e dois futuros. É quando "aplico minha filosofia”, por assim dizer: língua difícil é aquela que você não quer aprender.
À página 129, Isabel Cristina, de 6 anos, pergunta:
- Mãe, quando é que vamos ao "pernatologista"?
Alguém havia comentado sobre a lesão que a criança tinha na perna e sugerido que um dermatologista deveria ser consultado. A criança associou "pernatologista", uma vez que a lesão era na perna, por imitação, a "dermatologista".
APRENDENDO A CONTAR
Para classificar as personagens "crianças ", eu tinha que passar por um momento de aprendizagem assaz importante na nossa sociedade de consumo: aprender a contar. Aqui surge uma grande diferença entre a aquisição da contagem na língua materna pelas crianças indígenas - nas quais nos baseamos pela nossa própria experiência - e essa aquisição pelos infantes confrontados com uma sociedade que funciona o tempo todo com números, seja para comprar algo ou fazer as operações de somar, dividir, multiplicar e diminuir. Ora, essa problemática é mais do nosso mundo capitalista e, em geral, urbanizado. Não presenciei isso na aldeia kraho , nunca. Talvez os homens adultos dominassem essa "técnica", quando iam à cidade mais próxima por razões comerciais ou, às vezes, por doença.
No livro de M.T.GODOY, encontramos vários exemplos que coincidem com a observação da criança aos dedos de sua mão. Há só cinco dedos, seja na direita, seja na esquerda. Para a difícil operação de multiplicar por dois, duas mãos iguais, com cinco dedos iguais, vai dar dez. Mas, em geral, só usam uma mão para contar.
Gostaria de sublinhar que a língua guarani, falada no Paraguay , com suas variantes no sul do Brasil , foi-me ensinada, e a contagem era até 100 . Trata-se de uma criação forçada pelos padres e estudiosos da língua, já que, como língua nacional, compartindo essa atribuição ao lado do espanhol, não possuía originalmente esse vocabulário de contagem.
A segunda observação tem a ver com a contagem feita em alguns grupos indígenas brasileiros que só têm três números, equivalentes aos dedos polegar, indicador e médio - os dedos mais ativos e importantes. Logo, seu léxico aritmético conta com "um", "dois” e "três", somente.
Com relação à aprendizagem dos numerais cardinais pelos adultos que estudam uma língua estrangeira, em geral, além de memorizar os números, não há maiores dificuldades. Assinalamos a existência de gêneros masculino, feminino e às vezes neutro, para os números. Em espanhol, por exemplo, não há feminino para o numeral cardinal dois. Desta forma, eles dirão: dos casas.
Assim , mesmo que a criança de país "urbanizado", morando na cidade, comece a sentir menos dificuldade depois dos 6 ou 7 anos, ela recorrerá aos dedos das mãos durante muitos anos. Vejamos alguns exemplos do livro analisado, onde se nota a "confusão" com as noções de tempo:
À pág. 29, Caio, de 5 anos, pergunta:
- Mãe, com quantos anos a gente nasce? Assim com um e meio?
Expliquei que era com zero anos, explicação-mor do irmão.
Deduzimos que a mãe sabia que aquela resposta ele recebera do seu irmão mais velho. Ele pergunta, porque quer ter a confirmação, Para ele é óbvio que a noção de "zero" inexiste, já que "zero" não tem nenhum sentido, é a negação de qualquer coisa e, mais ainda, de alguém, um bebê. Quando estudamos as civilizações antigas, ressalta-se a "invenção do zero", atribuída aos maias, quando na verdade havia sido descoberta antes, pelos olmecas. O conhecimento de um algoritmo que só tem sentido quando depende dos outros demorou, na História da Humanidade, e seus vestígios são hoje encontrados nas verbalizações das crianças, que fazem mais reflexões do que pensamos.
Vejamos outro exemplo:
Às páginas 65 e 66, a avó conta sobre Chico, de 3 anos:
Conhece todas as cores, tem perfeita noção de tamanho, é craque nos quebra-cabeças e conta até... 27, 28, 29 ,10. A vó tentou ensinar o 30, mas ele persistia no 10.
Neste exemplo, força é reconhecer que esse menino é muito “amadurecido" para sua idade, pois conseguiu " somar os dedos das duas mãos, já que 6 a 10 prosseguem na segunda mão. Os números seguintes, até 29, são para ele uma repetição. O que é lógico, para ele, é a contagem de 1 a 10. Sua avó tentava "avançar" na abstração, mas a criança, em casos como esse, é pragmática. Daí sua insistência em voltar ao 10, o que para ele faz sentido.
COMENTÁRIOS FINAIS DO LIVRO DE M.T.GODOY
Observemos o exemplo abaixo de um menino de 13 anos que não só se afasta já da infância de cinco-seis anos, mas tem agora outro raciocínio, e se sente uma pessoa igual a seus pais e aos adultos em geral. Pode ser um exemplo psicológico, mas não somente. Há uma certa lógica, diferente daquela das crianças mais jovens.
À pág. 89, Felipe, de 13 anos, furioso com sua mãe, diz a ela:
- Quando você briga comigo, você está brigando com você mesma, ́ porque a gente é igual.
No exemplo seguinte, a criança observa, com mais atenção do que nós, adultos, percebemos, esse "dehors" (o afora) do qual Sartre falara, sem se preocupar com aquisição nem com aprendizagem.
À página 125, Chico, de 7 anos, dialoga com a avó.
- Vovó, você é milionária?
- Claro que não. Por que você está perguntando isso?
- Porque você tem três casas.
- Compradas com muito sacrifício e trabalho.
-Você é rica?
- Rico é quem gasta menos do que ganha. Eu e seu avô estamos sempre gastando mais do que ganhamos.
- Se eu fosse milionário, eu dava mil reais para os pobres.
Vemos aqui a curiosidade do garoto que, nessa idade, já se deu conta das diferenças que há entre as pessoas: umas têm mais do que outras. A Sociologia e a Sociolinguística assim denominam essas diferenças: classes sociais. A criança quer entender o critério, daí as perguntas e, se no quadro da própria família, melhor. Isso aconteceu em minha casa: minha filha de uns sete ou oito anos perguntou ao seu avô se éramos classe média. O léxico escolhido pelo menino, “rica”, “milionária”, indica bem o conhecimento de seus antônimos. O fato do menino dizer que daria "mil reais" a cada pobre implica a generosidade das crianças, inúmeras vezes ressaltada pelos exemplos de M. T. Godoy - sem que a idade do infante importasse - e implica também o reconhecimento de que a vida do pobre é mais difícil. Evidentemente, a Economia não entra ainda nesse "dehors", porque mil reais não é um valor para mudar a classe social de ninguém. Atente-se para o uso do numeral "mil" como o maior valor que a criança considera poder resolver qualquer dificuldade.
Na aprendizagem da língua estrangeira pelo adulto, essa transição cultural e etária não se dá, e é aqui que a sintaxe dominada e o bom conhecimento do léxico ajudarão mais na escrita, habilidade mais fácil para ele do que a habilidade oral.
Se o livro de M. T. Godoy poderia ser classificado de coletânea ou de uma compilação de tiradas de crianças, é certo que ele não só remete a questões linguísticas, as quais nos servem humoristicamente como a confirmação dos passos que as levam, e a nós, à aquisição da língua materna, mas também - sem se propor – dá-nos algumas pistas para a aquisição da língua materna. Queremos ressaltar que, além disso, confirma o que vários teóricos, linguistas aplicados e psicólogos, em particular, disseram sobre a imersão na língua estrangeira, que não é apenas linguística, mas também cultural.
Destacamos alguns exemplos, assinalando que a Lógica já apareceu, e aliás parece que não se limita tão acertadamente aos pós cinco anos de idade. Piaget coloca uma espécie de fronteira nesse momento, mas ela não é inflexível. O leitor concluirá, por si mesmo, através dos exemplos apresentados. Lembramos que há neles elementos de Sociologia, História, Filosofia, Aritmética, Economia, Poesia etc., e também de personalidade, como egoísmo, ciúme, afeto, teimosia, agressividade, compaixão etc., elementos que costumamos pensar que são do rol da Psicologia.
Como havíamos pensado, e dado um ou dois exemplos das observações das crianças que têm mais de cinco anos, aqui oferecemos mais exemplos. Concordando em geral com Piaget, reproduzimos abaixo mais um exemplo desse "afora" (dehors), que começa a intrigar cada vez mais as crianças, sempre muito observadoras. Não vamos aqui falar do mencionado "egoísmo" dos infantes, não só pela profunda especificidade do tema, mas também porque nosso objetivo é tratar das noções de aquisição e de aprendizagem. Já sublinhamos que a língua não-materna aprendemos, e necessitamos , em princípio, de um professor. Com relação à lingua materna, tudo e todos servem , sem diplomas. Qualquer pessoa familiar ou amiga, sem importar a idade nem o sexo, ajuda nesta aquisição. A nacionalidade, sim. Dito de outra forma, a criança aos três, quatro anos, já é capaz de distinguir o sotaque de algum estrangeiro, tentando falar a língua dela, a materna.
Voltando ao que está dentro (dedans) e ao que está fora (dehors) - noções também utilizadas por Sartre - a curiosidade pelo que está fora aumenta, conforme a criança se afasta das idades menores. Assim, a sociedade lá fora lhes chama muito a atenção. Aparecem no livro de M. T. Godoy inúmeros exemplos que incluem:
-- Classes sociais
-- Riqueza x pobreza
-- Profissões
-- Religião
-- História
-- Geografia
-- Solidariedade
-- Sentimento de impotência
-- Aumento do conceito de lógica
-- Conhecimentos gerais etc.
CONCLUSÃO
O livro em questão, aparentemente inclassificável, é na verdade um compêndio, principalmente para os objetivos do presente ensaio. Serviu-nos para enriquecer nossas reflexões sobre a aquisição da língua materna e a aprendizagem de uma língua estrangeira pelo adulto. Além disso, recorremos à nossa experiência pessoal com a comparação da aquisição da língua materna, pelas crianças indígenas, e a minha tentativa de, já adulta, aprender o kraho, o ofayé e o guarani. Aí entra em cena a Etnolinguística e minha forçada necessidade de voltar à infância e abandonar os preconceitos já muito arraigados. Nós nos baseamos nas leituras realizadas há mais de meio século, sobretudo por especialistas em Psicolinguística, em Linguística Teórica e Aplicada e em Psicologia, mas a inovação de uma pesquisa voltada para a aprendizagem e a aquisição de uma outra língua desconhecida, e estruturalmente diferente, tem a ver com nossa prática, ligada a uma Etnolinguística e a uma Psicolinguística desconhecida para nós. E assim mencionamos o russo Alexey Leontiev , filho do maior psicolinguista da URSS; a romena Slama-Cazacu, psicolinguista famosa, cujo livro principal foi traduzido por nós do francês; o famoso psicólogo Piaget e o não menos conhecido linguista N. Chomsky etc.
Além do exposto, fora a questão fonética - muito ligada à Fonologia e facilmente adquirida pela criança, mas difícil para o adulto - ressaltamos a estrutura sintática, logo adquirida, e a classe difícil da Lexicografia, aparentemente sempre menos complicada para o adulto bem preparado, já que o léxico depende da semântica, campo infinito da língua, comparado com as outras categorias finitas. E, evidentemente, exige uma vivência que a criança ainda não tem. Nessas questões, gostaríamos de ressaltar a disciplina que aparentemente "une" a criança e o adulto. Trata-se da Lógica, um dos únicos temas semânticos não “perdidos" pelos indígenas, mas pouco a pouco excluído do uso na língua materna pelos adultos. Ou mesmo, muito rapidamente excluído por eles. Damos aqui um exemplo meu, a autora dessas linhas, trabalhando com um índio kraho, um de meus dois informantes.
Eu perguntei a Kakró (o nome do índio, como se diz em kraho) :
- O macaco comeu a carne com a mão?
Houve um silêncio, como resposta. Insisti e repeti a pergunta. Ele observou, e disse, com muito respeito:
- Melhor com a boca.
Eu imediatamente concordei:
- Você tem razão.
E corrigi a frase:
- O macaco comeu a carne com a boca?
Outra vez silêncio. Após uma pausa, ele observou:
- Melhor a banana.
Assim, há inúmeros exemplos de ilogicidade praticados pelos adultos que moram principalmente em zonas urbanas. O que parece evidente e compreensível para o cidadão branco ou brancóide, o não índio, não o é para o nativo , e ele e a criança não vão admitir algo que não existe.
Para a teoria de Piaget de que a criança vai começar a "olhar" para o que está fora de seu "universo", a partir dos seis anos - demonstrando inclusive uma capacidade de raciocínio que chega até a abstração - o livro de M.T.GODOY nos dá inúmeros exemplos. Há citações que se referem a Conhecimentos Gerais, História, Economia e dinheiro, Sociologia etc. Observamos, entretanto, que há exceções, há crianças precoces e outras, a caminho da adolescência, que se calam. E há razões para isto, algo que não desenvolvemos aqui.
O livro "Crianças e suas tiradas” valeu-nos mais para desenvolver a comparação entre aquisição e aprendizagem de línguas, talvez porque conte com um maior número de tiradas de infantes entre 2 e 6 anos, e cremos que a Etnolinguística também tem seu aporte, Excelente compêndio, serve de uma fantástica ajuda para a Psicolinguística, para a Psicologia, para a Etnolinguística, para a Matemática (observaram que a abstração do zero não existe para os pequenos), para a Filosofia ( a Lógica), a Poesia, a Música, a Pedagogia etc. Independentemente de suas intenções, desejamos que esses profissionais aprendam, rindo, com as crianças.
* “Boulevard é a expressão usada para as peças populares dos teatros do Boulevard du Temple e outras avenidas, em Paris.
** René-Charles Guilbert de Pixerécourt (1773-1844) era dramaturgo, diretor de teatro e tradutor literário francês . Suas peças teatrais alcançaram grande sucesso, em sua época, sendo assistidas tanto por nobres como por pessoas analfabetas, que constituíam a grande maioria de suas plateias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHOMSKY, Noam . Estruturas Sintáticas. Ed. Vozes, 2015.
_______________ . Linguagem e mente. Ed. UNESP, 2009.
_______________ . Sobre Natureza e Linguagem. Ed. Martins Fontes, 2019.
Godoy, M. T (2023). Crianças e suas tiradas. Jundiaí, SP: Selo Editorial (Telucazu Edições), 2023 .
LEONTIEV, Alexey. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. Ed. Icone, 2017.
SLAMA-CAZACU, Tatiana. Psicolinguística Aplicada ao Ensino de Línguas. Ed. Pioneira, 1979.
TITULAÇÕES DE ROSELIS BATISTAR
• Licenciatura em Filologia Russa. Faculdade de História e Filologia da Universidade Patrice Lumumba, Moscou, 1973.
• Mestrado em Linguística . Faculdade de História e Filologia da Universidade Patrice Lumumba, Moscou. 1974.
• Professora de Linguística na Escuela Nacional de Antropología e Historia (ENAH), México. 1981-1984.
• Bolsista do CNPq em Etnolinguística e professora de Linguística; Universidade Federal de Goiás , Goiânia, GO.1986-1989.
• Professora de Linguística na formação de tradutores na Universidade Estadual Paulista, Rio Preto, SP, 1989-1993.
• Professora de Espanhol e Civilização Hispânica, Língua e Literatura Portuguesa e Cinema Latino-americano do Departamento de Línguas Neolatinas na Université de Reims - Champagne-Ardenne, 1994-2008
TRABALHOS PUBLICADOS de ROSELIS BATISTAR
• La Psicolinguística y su empleo. Dirección de Memoria (Mestrado) en la ENAH - Escuela Nacional de Antropología e Historia, Ciudad de México,1977.
• Vários artigos sobre a língua kraho na Revista do Ceiman. Centro de Estudos Indígenas da UNESP de Araraquara, S.P, 1988 a 1991.
• Elementos para o estudo das relações espaciais, aspectuais e temporais. Rev. Alfa, n°33; UNESP, 1989.
• A língua como veículo de resistência cultural: o caso Kraho e a influência do português. Terra Indígena, n°63, UNESP, 1992.
• Panorame des langues indigènes du Brésil” en collaboration avec Marymarcia Guedes. Recherches Brésiliennes, n°527, Université de Besançon, Paris, 1994.
• Village indien et centre urbain : relations interculturelles. Les Krahos du Tocantins. Regards sur la ville et la campagne au XXème siècle ; Université de Toulouse Le Mirail, 1997.
• La obra de Nísia Floresta en el siglo XIX en Brasil. Trabalho apresentado nas Jornadas Culturales de la UAM, Mexico, julho de 2007.
• Lírica ni siempre amorosa. Cenzontle, Grupo Editorial, México 2007.
TRABALHOS PUBLICADOS de MARIA TEREZA B. M. GODOY
• A Burigada-mor. Crônica. In Brasil & Italia = Brasile & Italia: dois países: uma só alma = due paesi: una sola anima/org.: Rosalie Gallo Y Sanches, Márcio Martelli – Jundiaí, SP: Ed. In House, 2022, p. 198.
• Reflexões ao pé de um computador. Crônica. In 1º Concurso de crônicas Professor Sérgio Vicente Motta./org. Rosalie Gallo y Sanches/coord. Arlec. Jundiaí, SP. Ed. In House, 2023, p. 106.
• Crianças e suas tiradas/ Maria Tereza Búrigo Marcondes Godoy. – Jundiaí, SP: Selo Editorial, 2023 (Telucazu Edições)
Para adquirir a obra “Crianças e suas tiradas”, consultar:
www.seloeditorial.com.br/mariaterezagodoy
email: terezagodoy1945@gmail.com